Ao Fingidor de Veras, deveras
Maria Luiza Bonini
A Fernando Pessoa
Cancioneiro

Autopsicografia
Fernando Pessoa

 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 

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O fingidor de Veras, deveras

Maria Luiza Bonini

 

 

Às tuas Veras, fingiste dor, deveras
E, tão completamente
Que as deixaste confusas à tua espera.
Tal qual mulheres de Athenas, tão incoerente...

Se é fingimento o que sentes
Belo poeta, quem dera!
Definir em teus versos o que nos faz dementes
E que a dor do amor fosse deveras

Ah, fingidor, como te fizeste amado
Por tantas e tantas primaveras
Vividas no presente e no passado

É de todas elas a dor que ainda sentes
Por ter um amor fingidor, deveras
Pela saudade que te fez ausente

***
SP. 12.02.09
 

 

 

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