A Cartinha de Carlinhos
Maria Luiza Bonini


Era um desses meninos pobres, carentes de tudo.


Para Carlinhos, faltava desde um alimento saudável, que toda criança precisa e por direito lhe é devida, lhe faltava também o alimento da alma, o carinho e dedicação, o direito de ser criança.


Nosso amiguinho, residia em um pequeno barraco em um morro qualquer de uma grande cidade.


Convivia com tiroteios, com ódio, com insegurança, com a ausência de paz...


A sua vida pobre, não lhe tirava a pureza da alma de uma criança, como outra qualquer.


Seus sonhos sempre foram lindos. Como ficava feliz, Carlinhos, quando na trégua dos tiroteios conseguia conciliar o justo sono de um inocente !
E como Deus era bom e vigilante em seu sono... Até lhe proporcionava lindos sonhos...


Carlinhos dormia e sonhava...


Em seu sonho imaginava uma casa linda... Com televisão... Com computador... E até com comida!


Em seus sonhos havia uma escola em que ele poderia freqüentar sem medo de ser atingido por uma bala perdida ao transitar pelas vielas da favela.


Que sonho lindo!


Carlinhos sonhava que poderia algum dia ter um emprego. Carlinhos sonhava poder trabalhar. Era muito importante para ele, que já havia completado oito anos de idade, ter um emprego, para poder ajudar sua mãe a alimentar os seus cinco irmãos. No fim das contas ele era o mais velho, e portanto, a ele caberia esta responsabilidade.


O nosso menino sonhava acordado e quando dormia, sua vida era alimentada por sonhos.


Certo dia, teve uma idéia.


Vou escrever uma cartinha a alguém... Quem sabe assim, consigo ajudar minha família!


Vou escrever para o meu amigo... Dai surge a sua grande dúvida... Para qual amigo Carlinhos escreveria? No fundo, tanto sofrimento e os conceitos que a vida lhe trouxera, não sabia se deveria escrever ao presidente ou ao traficante que comandava o morro.


Para ele, em sua sábia ingenuidade, ambos eram poderosos! Ambos, portanto, poderiam ajudá-lo.


Pensou... Pensou... Olhando a folha em branco e caneta na mão... Enfim... Resolveu!


Vou escrever uma cartinha... Mas não será nem para o Zé do Pó e nem para o Presidente. Vou escrever uma cartinha para o Papai Noel.


E refletia... Enfim... Não é para ele que escrevem todas as crianças quando querem pedir algo?


Passou a desenhar suas letrinhas no papel... E escreveu... Lindamente... Os seus enganos de ortografia eram a beleza que ilustravam a cartinha que escrevia.


Passadas algumas horas... O morro é tomado pelos policiais que resolvem entrar em todos os barracos a procura dos fora da lei...


Ao entrarem em um barraco, encontram um menino dormindo sobre a mesa, com seu rostinho ensanguentado tombado sobre o papel...


A bala perdida, havia silenciado nosso amiguinho.


A cartinha escrita sobre a mesa... E que seu teor havia sido interrompido, dizia:

"Querido Papai Noel,
estou lhe escrevendo para pedir que você faça alguma coisa para que a gente tenha um pouco de paz aqui no mor..."

(mor... poderia ser morro como lugar onde ele habitava?... mor... poderia ser... morro de morrer?... mor... poderia ser amor abreviado?)


Esta resposta, Carlinhos levou com ele.


O que ficou nitidamente claro, é que Carlinhos pedia unicamente um pouco de PAZ!


E ao que nos parece, foi prontamente atendido...

 

 

 

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