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O ESTUDANTE
ALSACIANO
Acácio Antunes
Antigamente, a
escola era
risonha e
franca.
Do velho
professor as
cans, a barba
branca,
Infundiam
respeito,
impunham
sympathia,
Modelando as
feições do
velho, que
sorria
E era como
creança em meio
das creanças.
Como ao pombal
correndo em
bando as pombas
mansas,
Corriam para a
escola; e nem
sequer assomo
De aversão ou
desgosto, ao ir
para ali como
Quem vae para
uma festa. Ao
começar o
estudo,
Elles, sem um
pesar,
abandonavam
tudo,
E submissos,
joviaes, nos
bancos em
fileiras,
Iam todos
sentar-se em
frente das
carteiras,
Attenta,
gravemente — uns
pequeninos
sabios.
Uma phrase a
animar aquelle
bando imbelle,
Ia ensinando a
este, ia
emendando
áquelle,
De manso, com
carinho e
paternal amor.
Por fim, tudo
mudou. Agora o
professor,
Um grave
pedagogo, é
austero e
conciso;
Nunca os labios
lhe abriu a
sombra d’um
sorriso
E aos pequenos
mudou em
calabouço a
escola
Pobres aves, sem
dó metidas na
gaiola!
Lá dentro, hoje,
o francez é
lingua morta e
muda:
Unicamente o
allemão ali se
falla e estuda,
São allemães o
mestre, os
livros e a
lição;
A Alsacia é
allemã; o povo é
alemão.
Como na propria
patria é triste
ser proscripto!
Frequentava
tambem a escola
um rapazito
De severo
perfil, energico,
expressivo,
Pallido, magro,
o olhar
intelligente e
vivo
— Mas de intima
tristeza aquelle
olhar velado
Modesto no
trajar, de lucto
carregado...
— Pela patria
talvez! — Doze
annos só teria.
O mestre, d’uma
vez, chamou-o á
geographia:
— "Dize-me cá,
rapaz... Que é
isso? estás de
lucto?
Quem te morreu?"
— "Meu pae, no
último reduto,
Em defeza da
patria!"
— "Ah! sim, bem
sei, adeante...
Tu tens assim um
ar de ser bom
estudante.
Quaes são as
principaes
nações da
Europa? Vá!"
— "As principaes
nações são... a
França..."
— "Hein? que é
lá?...
Com que então, a
primeira a
França! Bom
começo!
De todas as
nações, pateta,
que eu conheço,
Aquella que mais
vale, a que
domina o mundo,
Nas grandes
concepções e no
saber profundo,
Em riqueza e
esplendor, nas
lettras e nas
artes,
Que leva o seu
domínio ás mais
remotas partes,
A mais nobre na
paz, a mais
forte na guerra,
D’onde irradia a
sciencia a
illuminar a
terra,
A maior, a mais
bella, a que das
mais desdenha,
Fica-o sabendo
tu, rapaz, é a
Allemanha!"
Elle sorriu com
ar desprezador e
altivo,
A cabeça agitou
n’um gesto
negativo,
E tornou com voz
firme:
— "A França é a
primeira!"
O mestre,
furioso,
ergue-se da
cadeira,
Bate o pé, e uma
praga energica
lhe escapa.
— "Sabes onde
está a França?
Aponta-m’a no
mappa!"
O alumno
ergue-se então,
os olhos
fulgurantes,
O rosto
afogueado; e
emquanto os
estudantes
Olham cheios de
assombro aquelle
destemido,
Ante o mestre,
nervoso, audaz e
commovido,
Timido feito
heróe, pygmeu
tornado athleta,
Desaperta,
febril, a sua
blusa preta,
E batendo no
peito, impavida,
a creança
Exclama:
— "É aqui
dentro! aqui é
que está a
França!"
Nota: Este poema
era declamado
por minha irmã,
enquanto eu
tocava ao piano
Le Lac de Come.
Ambas meninas,
na tenra
idade.para o
orgulho de papai
que fazia do
ato, tão solene
quanto uma
liturgia
dominical.
(Maria Luiza
Bonini)
 
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